Antropofagia Institucional nas Guardas Municipais

Antropofagia Institucional nas Guardas Municipais

Só me interessa o que não é meu.[1]

 

Hábito ou ritual de deglutir uma ou várias partes de outro ser humano, também conhecida como canibalismo, a antropofagia era praticada por povos que acreditavam que agindo assim incorporariam a força, as habilidades e a virilidade do ingerido.

 

Há profissionais que ainda hoje carregam esta crença – é claro que não em seu sentido literal. Mas pessoas que agem como se pudessem espremer, sovar, sugar para absorver todas as competências e conhecimentos; e então descartar o outro, como quem abre e degusta até o final um apetitoso pacote de bolachas (ou biscoitos?), dispensando na lixeira a embalagem vazia, amassada, triste, cansada.

 

Pode soar trágico, mas há Guardas Municipais que se autodestroem. Toleram, praticam, estimulam e já se acostumaram com posturas antropofágicas. E são tão boas nisso que se conduzem sozinhas para o insucesso; guardas que para ou por assumirem posição de destaque na Instituição não hesitam em conspurcar outros que, outrora, com eles ladearam e, provavelmente, voltarão a ladear.

É tentador. Tomar pra si, à força de pressão psicológica, chantagem com pequenas benesses ou imposição hierárquica, numa canetada, competências, habilidades, informações, saberes, técnicas e métodos que se levou anos de experiência e estudo para adquirir.

 

É tentador, mas não é possível. Ainda que aparentemente ocorra, será passageiro. Efêmero. Não se sustentará.

 

O ensaísta Oswald de Andrade apresentou uma visão diferente da antropofagia. Em seu Manifesto Antropofágico, de 1924, propôs assimilar, ruminar, deglutir e transfigurar a cultura, principalmente a europeia, conferindo um caráter nacionalista ao que se chamou de Modernismo.

 

Não se trata de absorver, se apropriar e descartar e então negar a existência de uma outra corrente de pensamento. E sim de se abastecer, se alimentar de outra e então produzir, conceber e regurgitar a sua própria.

 

É árduo, difícil, trabalhoso e cansativo. Não se trata mais de arrancar algo de alguém comendo-o depois vomitando-o e, como mágica, introjetando e assumindo toda a capacidade do descartado. Trata-se, na verdade, de estudo, aproximação, disposição para ouvir e debater ideias, crédito, mais estudo, vivência, compartilhamento de experiências; até que se atinja maturidade profissional suficiente para desenvolver sua própria cultura (expressa em procedimentos, princípios, ordens, métodos, normas, planos, gestão).

A maior força das Guardas Municipais não são as leis, a arma no coldre, o poder de polícia, os órgãos federais com destinação de vultuosos recursos. Não é o Prefeito ou os vereadores.

 

São os próprios guardas. Reconhecer-se valoroso fará crescer a Instituição – crescer em respeito, em estrutura, em investimento, em remuneração. O crescimento individual dentro de uma Instituição estagnada é frágil. Por outro lado, o crescimento de uma Instituição forma base, sólida, para que, naturalmente, alguns componentes se destaquem e despontem como lideranças; e aí sim, se alimentem dos outros colegas, no sentido pregado por Osvald, em verdadeira e legítima antropofagia institucional.

 

[1]     ANDRADE de, Oswald. Manifesto Antropófago. Publicado em Correio da Manhã, março de 1924.

 

 

 

Denis Campos Vieira de Castro Guarda Civil Municipal em Guarujá desde 2000. Já atuou como Coordenador de Justiça e Disciplina e Diretor de Análise de Informações. Bacharel em Comunicação Social e em Direito; Pós-graduado em Administração Pública. É Supervisor GCM e atua na assessoria técnica e jurídica da Secretária Municipal de Defesa e Convivência Social de Guarujá, SP, acumulando entre outras funções a presidência das Comissões Disciplinares da GCM. Professor e instrutor associado do Instituo IPECS para cursos de formação de Guardas Municipais e agentes aplicadores da lei, colaborador e articulista da revista QAP Total

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